Genuino Sales

O Ceará me tem sido extremamente pródigo em hospitalidade no decorrer destes 45 anos de convívio saudável no seio de sua gente hospitaleira e amiga. Assim o foi enquanto aqui vivi na procura da realização dos estudos universitários nos memoráveis tempos de estudante na Universidade Federal do Ceará.

Estudante, em Fortaleza, tive o privilégio do usufruto da convivência de gloriosos mestres na Faculdade de Direito – onde me bacharelei. Mestres que me ensinaram não apenas a noção das ciências jurídicas e sociais, mas sobretudo me ensinaram a consciência da cidadania para o exercício da dignidade profissional. Cito com muito orgulho e saudade Clodoaldo Pinto, Olavo Oliveira, Eribaldo Costa, Flávio Marcílio, Fran Martins, Paulo Bonavides e Carlos Roberto Martins Rodrigues. Não posso olvidar as saudades do Centro Acadêmico Clóvis Bevilácqua – Escola de liderança – de memoráveis campanhas estudantis – sobretudo aquelas levantadas contra o império do Regime Militar de 1964 – de infeliz memória e que tanto vilipêndio trouxe aos postulados da democracia brasileira.

Esta acolhida humana – quase adoção – tem se dilatado cada vez mais franca por toda minha permanência aqui – como profissional e como pai de família, o que me torna a alma uma canção de amor ao Ceará. Aliás – não há muita diferença em ser do Piauí ou ser do Ceará. Nossas almas se irmanam por meio de fortes vínculos do amor telúrico. Os mesmos sonhos, as mesmas ansiedades e até os mesmos padecimentos. A seca – A pobreza – O analfabetismo e a discriminação por sermos nordestinos, mas, se porventura cotejo o meu destino com o destino do cearense, logo me vem a ideia de identidade. E eu a sinto viva nos versos do glorioso poeta Jader de Carvalho:

 

“Na minha terra,

as estradas são tortuosas e tristes

como o destino de seu povo errante”

 

Assim também é lá no Piauí. Por isso é que somos verdadeiros irmãos.

Nossas extremas e nossos limites não nos afastam, aproximam-nos. São pontos marcantes que sacralizam nossa união, nossa amizade, e nossa concórdia. A majestosa Ibiapaba com seu grandioso dorso ancestral, ergue-se como o traço de união mais vivo a contar a história do nosso passado, na reescrita do maravilhoso poema de nosso presente. O misterioso e legendário rio Poti, nascendo nos talhados e chapadões do Crateús corre como uma lágrima comprida a banhar o rosto tostado do sertão por entre os carnaubais a prantear talvez a perda da gleba que já foi nossa. Esvai-se no Parnaíba poetizando a Chapada do Corisco num canto de amor e exaltação à querida terra filha do sol do Equador.

Profissional da educação – tenho aprendido no Ceará mais do que ensinado. Ousei tornar-me professor do ensino médio porque amo a educação da juventude – meu maior ideal – minha induvidosa vocação. Há 50 anos vivo a emoção da certeza de que quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender. A juventude é a fase mais formosa da vida, é a vida no seu maior esplendor. A essência de todos os seus encantos. O vaticínio da perenidade do amor entre os homens.

Pai de família – tive a felicidade de experimentar a alegria da paternidade de três filhos cearenses – modéstia à parte – muito bons cearenses. Os dois primeiros já me deram dois netos também cearenses, o que me assegura o direito de afirmar que já tenho uma família cearense. Com eles tenho aprendido o significado do sacrifício – a consciência da obstinação pelo trabalho – único desígnio a que o homem não pode fugir. Eles constituem o poema de minha eternização, disfarçando a dolorosa realidade de que na vida tudo passa. Ressalto aqui a colaboração inestimável de minha mulher – D. Glades – também do Piauí, mas que não temeu acompanhar o marido pobre nesse êxodo em busca deste Ceará da promissão.

Confesso que considero o meu ingresso na Academia Cearense de Letras como o acontecimento mais significativo de toda minha vida intelectual e interpreto a escolha de meu nome como um gesto de extrema generosidade dos acadêmicos que compõem este Sodalício.

Senhores Acadêmicos, para chegar até aqui, tive que madrugar muito, percorrer longos caminhos alimentando coragens e suportando medos e ansiedades numa cavalgada de esperanças e sonhos. Tive que enfrentar principalmente o sacrifício das distâncias na ousadia de quebrar as lonjuras entre o sertão e a cidade grande na busca da realização dos estudos universitários. Romper essas distâncias não seria fácil ao menino sonhador, exatamente pela circunstância agravante de ser um menino matuto. Nunca fui um menino pobre. Fui, sim, um menino de engenho. Um menino que não teve jardim de infância da escola moderna fundamentada na Epistemologia Genética de Piaget, mas teve a infância num grande maravilhoso jardim onde cresceu livre como a liberdade. Cresci entre os caboclos robustos, que me ensinaram no eito, na labuta do amanho da terra a grande lição que me fez entender o drama social da terra na perspectiva histórica que define a situação de explorados e exploradores. Ali aprendi a soletrar o mundo para leitura da vida. Que a riqueza é um meio para dignificar o homem e nunca um fim para escravizá-lo.

Foi ali também que descobri sem a lanterna de Diógenes um sábio – meu mestre escola – José Raimundo Pereira – a quem nesta noite de festa e de gala tributo meu maior reconhecimento e minha eterna gratidão pelo gesto grandioso de me ter ensinado a ler e a escrever, preparando-me os primeiros passos para a conquista da libertação e alcance da consciência do exercício da cidadania. Ensinar um homem a ler é promover o milagre da libertação.

Senhores Acadêmicos, consciente de minhas limitações, bem sei que não saberei estar aqui com a mesma dimensão e grandeza intelectual dos componentes deste centenário sodalício. Garanto, porém, que saberei estar sempre disposto e disponível para colaborar para o desenvolvimento da Academia.

Considero a Academia uma escola de cultura, o que implica ser também uma escola de cidadania.

Com humildade, ocupo a cadeira nº 09, que tem como patrono o glorioso filósofo cearense Fausto Carlos Barreto. Homem de origem sertaneja, nasceu na freguesia de São João dos Inhamuns e enfrentou o sacrifício das distâncias e chegou a atingir as alturas do magistério de Português e Latim do colégio Pedro II – onde ingressou por meio de dois brilhantes concursos. Uma das atividades mais importantes de sua vida foi a parceria com Carlos de Laet na Organização da Antologia Nacional, obra de cunho didático até hoje inexcedível.

Tão grande quanto o patrono é o meu antecessor na cadeira nº 09, escritor consagrado pela força do gênio e pela dimensão da obra literária que produziu. E enfrentou também o sacrifício das distâncias já que nasceu em Larvas da Mangabeira no dia 30 de março de 1913, filho de Raimundo Nonato Bezerra e Maria da Costa Bezerra. Na cidade natal fez os estudos primários. Completou as humanidades no Colégio São João, de Fortaleza. Bacharel em Direito pela Faculdade do Ceará, tendo colado grau em 1950, e contador pela Escola de Comércio Padre Champagnat, igualmente da capital cearense, na qual iniciou a sua carreira de professor, como o foi depois no Instituto de Educação Justiniano de Serpa, na Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Ceará, na Escola de Administração do Ceará.

Produziu as seguintes obras: Não há estrelas no Céu (1948); O Sol Posto (1952); Longa é a Noite (1952); O Homem e o seu Cachorro; O Semeador e Ausências; Estudos: Juvenal Galeno e Humberto de Campos.

João Clímaco Bezerra, além de grande romancista, é sobretudo um cronista e um contista de primeira, engrandece a literatura cearense e a literatura brasileira. Na verdade, os que contam histórias como ele as contou enxerga um mundo com a visão percuciente dos sábios e sentem a vida na sua dimensão mágica, que expressa cruezas e pulveriza metáforas no disfarçar da dolorosa pena de viver.

Os que contam histórias são os escribas da existência e os verdadeiros porta-vozes do criador.

 

“Ceará, belos são os teus frutos

Porque são difíceis.”

Artur Eduardo Benevides

 

Não cheguei aqui sozinho, portanto devo agradecer o incentivo dos que me ajudaram a aqui chegar: 1- Prof. Edgar Linhares Lima, que me ensinou os caminhos para aqui chegar; 2- Organização Educacional Farias Brito, na pessoa do seu Diretor Superintendente, Prof. Tales de Sá Cavalcante, Diretor, e amigo de todas as horas; 3- Deputado Fernando Hugo Colares e o Prof. Olavo Colares, que me proporcionaram o título de cidadão cearense; 4- José Augusto Bezerra, bibliófilo que muito colaborou para minha eleição; 5- Edmilson Caminha, que me convenceu a escrever um livro.

Agradeço a confiança dos acadêmicos que proclamaram minha escolha com expressiva maioria.

Muito obrigado.

 

Fonte: http://www.academiacearensedeletras.org.br