José Augusto Bezerra

Ilustríssimas autoridades,

Senhoras e senhores:

Inicialmente, quero agradecer a honrosa distinção de poder fazer algumas reflexões, nesta solenidade, em nome dos recebedores desta importante láurea.

Lembremos que o Theatro José de Alencar, que nos acolhe nesta noite glamourosa, está comemorando o centenário da sua criação e que esta cerimônia é parte deste ano especial, que celebra, também, quatro décadas do Troféu Sereia de Ouro.

Assim, do alto deste venerando palco, testemunha de tantos momentos de glória, saudamos a ilustre plateia que engalana este recinto, nas figuras honoráveis de Dona Yolanda e do Chanceler Airton Queiroz.

As origens de eventos semelhantes podem ser encontradas há mais de dois mil anos, quando o povo grego, cheio de sabedoria, reunia-se em praça pública, chamada Ágora, para homenagear os que haviam dignificado a Grécia, nos campos de batalha ou no terreno das ideias. Em momentos de confraternização social, como este, é como se, inconscientemente, entrássemos em sintonia com aqueles rituais distantes, perdidos no tempo, onde os homens e seus feitos eram lembrados.

Preliminarmente, gostaria de observar que o Brasil é a mais importante nação da raça latina, no mundo atual. Em extensão geográfica, em número de habitantes, em produção de riquezas e em perspectivas futuras.

O Estado do Ceará nele se destaca por uma história de superação, contra secas, escravidão, pobreza e outros desafios, desde longas datas. Como bibliófilo possuo documento de D. João VI, já em 1819, reconhecendo a ajuda dos índios do Ceará, nas lutas pela preservação da unidade nacional. O Norte do Brasil, incluindo o Amazonas, foi conquistado por nordestinos e particularmente por cearenses, que por lá morreram aos milhares. Nossos soldados nas guerras sempre foram valentes e temidos, o que levou o conterrâneo General Sampaio a ser consagrado como o patrono da infantaria do Exército Brasileiro.

Junto com os outros filhos do Nordeste, propiciamos o progresso da região Sul, dando-lhe mão de obra abundante e barata, tanto na agricultura, com os boias-frias, como nas fábricas, na construção civil e no setor de serviços. Também na ocupação do solo, pois a própria cidade de São Paulo, a maior, a mais rica do País e uma das metrópoles do mundo, de acordo com a Fundação Getulio Vargas tem mais da metade de seus moradores, entre pais, filhos e netos, com origens nordestinas.

Numa palestra do sociólogo Gilberto Freyre, em 1980, feita neste mesmo teatro, ouvi-o afirmar que a raça brasileira, sendo feita de imigrantes, não tinha um biotipo próprio e que quando viesse a tê-lo, deveria ser parecido com o do cearense, pois fora ele quem dera a grande contribuição étnica por estado, à nação, ao emigrar para todos os recantos do País e miscigenar-se em todas as camadas sociais. Nas palavras daquele grande estudioso, portanto, o cearense é o modelo para que o tempo pinte, numa tela, um biotipo para o Brasil.

Nosso Estado muito tem colaborado também com a inteligência nacional. Fundou a primeira Academia de Letras do Brasil, antes da Academia Brasileira de Letras, criou um dos primeiros Institutos Históricos do país, implantou a primeira Secretaria de Cultura em um Estado, e é a sede da Associação Brasileira de Bibliófilos, também a mais antiga em atividade no espaço cultural brasileiro.

Aqui nasceram o criador do romance nacional, José de Alencar; o maior historiador do País, Capistrano de Abreu; o elaborador do nosso primeiro Código Civil, Clóvis Bevilacqua; o maior filósofo brasileiro, Farias Brito; um dos maiores filólogos, Heráclito Graça; o maior documentalista, o Barão de Studart; a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, Rachel de Queiroz, cujo centenário de nascimento também ocorre neste ano; o maior poeta popular do Brasil, Patativa do Assaré, e daqui saem os grandes humoristas do País.

Em outras áreas ainda podemos destacar líderes nacionais. Na religião católica, D. Helder Câmara; na doutrina espírita, Bezerra de Menezes; na religiosidade popular, Padre Cícero; na música, Alberto Nepomuceno; nas revoluções: Antônio Conselheiro, líder da Guerra de Canudos; Tristão de Alencar, Presidente da Revolução do Equador e Dragão do Mar, ícone da Abolição dos Escravos.

Então, como povo, somos tão-somente o resultado de tudo quanto antes por aqui se passou, e os troféus são símbolos de momentos importantes dessa nossa História. O Troféu Sereia de Ouro, por exemplo, é um pouco de um homem e seu tempo. Uma síntese da imaginação e um reflexo das esperanças do inesquecível Edson Queiroz, um dos maiores filhos do Ceará, em todos os tempos.

Sabemos que ao receber este reconhecimento, uma espécie de Prêmio Nobel da nossa região, levamos conosco, na realidade, um pouco das ideias de alguém que tinha em mente gerar riquezas e empregos para sua terra, e erigiu um conglomerado empresarial. Que estava determinado a criar oportunidades para os filhos do Ceará, através da educação, pois sabia que só pela cultura um povo se salva, e ergueu uma das maiores Universidades privadas do País. Que tencionava estimular a criatividade e o trabalho de outros que também tinham sonhos, na sua região, e instituiu o Troféu Sereia de Ouro.

Ao longo de quarenta anos, esse troféu, cujo logotipo da sereia foi criado pelo cartunista Mino, tem homenageado os que, em diferentes setores de atividades, deram uma parcela de contribuição ao desenvolvimento do Ceará. Nos primeiros 11 anos foi entregue pessoalmente por Edson Queiroz e, em 1982, após a sua morte, continuou sendo outorgado, sem nenhum período de interrupção, pela família, tendo à frente Dona Yolanda Queiroz, que assumira a presidência do Grupo. Nessa missão de empresária, Dona Yolanda, em 2008, atingiu a esfera internacional, ao tornar-se a primeira mulher recebedora do título de Personalidade do Ano, outorgado pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, em reconhecimento ao seu trabalho no estreitamento das relações entre os dois países.

Em 2010, estão sendo homenageados com o Troféu Sereia de Ouro, um artista plástico, Nilo de Brito Firmeza, o Estrigas; uma pioneira da dança clássica em nossa terra, Regina Passos; um médico, Gilmário Mourão Teixeira e um bibliófilo, José Augusto Bezerra.

Imaginemo-los como se fossem quatro semeadores de sonhos diferentes, que cultivam seus sentimentos em uma mesma região e que aqui vieram, nesta noite, atendendo a um chamado do destino. Conheçamos um pouco das sementes que plantaram e das colheitas que fizeram.

Nilo de Brito Firmeza, o Estrigas, começou a plantar no antiquísimo terreno das artes plásticas, cujas primeiras representações já podiam ser vistas nas pinturas das paredes das cavernas da pré-história, há mais de 30.000 anos. Tal arte utiliza imagens e formas que revelam a estética e a poesia das sociedades, em cada época, e representam, de certa forma, a evolução da espécie humana.

Em sua terra – o Ceará – Estrigas semeou através de pinturas, ilustrações, reproduções, catálogos, livros, artigos publicados, e um minimuseu. Por tudo isso, colheu os frutos do reconhecimento, sendo consagrado como um dos mais importantes protagonistas, memorialistas e documentalistas das Artes Plásticas do Ceará, no século XX e XXI.

Regina Passos, pelas mãos do próprio destino que hoje a convida, chegou às terras férteis da dança, uma das três principais artes da antiguidade, ao lado do teatro e da música. A dança, inicialmente sagrada, veio-se adaptando para o uso em sociedade e se transformou numa das mais belas representações dos sentimentos de cada povo e de cada época.

Em 1950, Regina Passos foi buscar no Rio de Janeiro as técnicas para a semeadura em Fortaleza. O arado com que cultivou, inicialmente, as terras, era feito de pioneirismo e intuição feminina, forças sublimes que transformam o mundo. Após mais de meio século dos primeiros passos, são os filhos e netos que dão continuidade àquele sonho, e a sociedade cearense, nesta noite, vem aqui para dizer da gratidão que deve a Regina Passos por ter feito nosso povo mais feliz, sensível e evoluído, e por haver-nos encantado, durante tantos anos, através dessa milenar arte da expressão corporal.

Gilmário Mourão Teixeira tornou-se um plantador de sonhos ao graduar-se em Medicina pela Universidade Federal de Pernambuco. Desde a antiguidade mais remota, esta missão simboliza o transcendente, havendo o próprio Cristo curado enfermos, de corpo e de alma. Na literatura Védica, na Índia; no Taoísmo, na China; no código de Hamurabi, na Babilônia; nos papiros de mumificação, dos egípcios; na Legislação de Moisés, entre os Hebreus, ou na antiga Grécia, de Hipócrates, há sempre algo de solene ao se falar da Medicina.

Descende este semeador da lendária família dos Mourões, cuja história é parte da saga cearense e da conquista da nossa terra. Foi o primeiro diretor do Sanatório de Maracanaú. Trabalhava com pacientes de tuberculose numa época em que a doença era quase incurável e contraí-la significava uma tragédia. Mas, não só não a temia, como ajudou a curá-la, e, mesmo em nível internacional, tornou-se reconhecido pela dimensão da sua obra assistencial e científica. Ao homenageá-lo, representamos milhares de pessoas que, um dia, depositaram as últimas esperanças de cura de um ente querido, em suas mãos, e, por extensão, reverenciamos também o trabalho apostólico de toda a classe médica.

Como último desses semeadores, apresento-me como José Augusto Bezerra. Dou continuidade a uma antiquíssima tradição, porquanto o primeiro grande bibliófilo foi Aristóteles, chamado o pai da Ciência, e a primeira grande biblioteca pública foi a de Assurbanipal, na Mesopotâmia.

No caso, destaco, por considerá-la curiosa, a opinião de nosso amigo José Mindlin, reconhecido como o maior bibliófilo do Brasil, que após visitar nossa biblioteca pela terceira vez, um ano antes da sua morte, declarou com o seu conhecido bom humor: – “Até que enfim encontrei um homem tão louco quanto eu”.

Defino o bibliófilo como aquele que deseja preservar pelo menos um exemplar de cada livro ou documento importante, para a posteridade. Ou seja, enquanto os ecologistas procuram resguardar o que a natureza criou, os bibliófilos se esforçam para proteger o que as mentes criaram, pois, tanto o meio ambiente quanto a memória humana não têm substitutos.

Senhoras e senhores, estamos conscientes de que os homenageados desta noite representam, por amostragem, todos os cearenses, importantes ou humildes, da cidade ou do interior, que amam o Ceará e trabalham por ele.

Somos agradecidos pelas honrarias que estamos recebendo e dedicamos as glórias deste momento a Deus, à família e aos amigos, parceiros leais de todas as horas.

É uma festa para os nossos corações termos sido chamados pelo destino e aqui estarmos. Levaremos o Troféu Sereia de Ouro como a lembrança concreta de que tal instante realmente existiu em nossas vidas e guardaremos, na retina dos nossos olhos, como se fora um segundo prêmio, a imagem de todos vocês que aqui vieram.

Enfim, como cada troféu é um pouco das ideias de quem o criou, vemos neste uma mensagem de fé do seu idealizador, Edson Queiroz, que nos ensinou: “Se algum dia vocês forem surpreendidos pela injustiça ou pela ingratidão, não deixem de crer na vida, de engrandecê-la pela decência e de construí-la pelo trabalho.”

 

Fonte: http://www.academiacearensedeletras.org.br